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7/03/2025

Vinte anos

 Querendo ou não, somos todos fascinados por datas, marcos e números redondos. Desta forma, não posso deixar de registrar que neste último dia primeiro de julho completei exatos 20 anos de serviço como professor municipal. 

E todos eles na mesma escola, com algumas pequenas exceções. Uma delas quando entrei na rede e tive que ficar alguns meses em outra instituição e uma mais recente, quando passei cerca de seis meses em uma simpática e pequena escola bem afastada da cidade. 

Nunca pensei em ser professor na juventude, mas acabei seguindo este caminho e - apesar de tudo - não me arrependo. A desvalorização que a categoria vem sofrendo ao longo dos anos talvez tenha sido o principal revés, e o principal motivo para que eu não recomende esta trilha para outras pessoas.









Tive alguns colegas valiosos que me ajudaram, principalmente no início, e dá para notar que fui melhorando ao longo dos anos, embora ainda cometa erros e continue aprendendo diariamente com os novos alunos e turmas que surgem pela frente. 

Já dei aulas do quarto ano do fundamental até o terceiro ano do ensino médio, de Inglês, Religião, Literatura e as mais variadas disciplinas. Tive alunos bons, outros muito ruins(em termos de comportamento) e já nem dá para contar quantas pessoas passaram por minhas salas de aula. O que é bem assustador, para falar a verdade. 

Não sei se conseguirei me aposentar, mas tentarei vencer os anos que faltam, que certamente serão cheios de novas demandas e experiências desafiadoras. Estes 20 anos se passaram como num estalar de dedos, e a única certeza é que a marcha do tempo continuará tocando de forma inabalável. 

E que venha o recesso de inverno...

2/18/2024

Faxina

 Sou professor desde 2005 e desde então vinha acumulando folhas dos materiais que faço para os alunos. Cópias e mais cópias que sobraram de conteúdos, exercícios, provas, trabalhos e atividades diversas. 

Poucas vezes tinha descartado algo, coisa que finalmente realizei nestas férias. Numa faxina que levou dias, fui rasgando muito papel inútil(provas antigas, conteúdos que não uso mais, rascunhos, livros e xerox desatualizados) e enchi mais de 30 sacolas de lixo, que já foram devidamente enviados para a reciclagem. 

Tenho a tendência de juntar os mais variados itens, então dá para imaginar como foi libertador poder livrar-me de tamanha carga. Sigo para este novo ano letivo mais leve, sem o peso de 18 anos de folhas me ancorando. 

Vou me esforçar para não ficar soterrado em folhas novamente e fiz este pequeno texto só para deixar registrada a data de quando este grande descarte aconteceu. Aviso, entretanto, que continuo colecionando revistas, livros, latinhas de cerveja e refrigerante e action figures.

Desapegar é bom e eu recomendo, mas ninguém é de ferro... 

12/10/2018

Selvagens

"Somos selvagens.
Entramos em cada dividida com a sola da chuteira em pé.
Cobramos escanteio e laterais protegidos pelos escudos da polícia.
Polícia esta que não pensa duas vezes em descer o cassetete nos torcedores ao primeiro sinal de uma briga.
Tentamos entrar no estádio, na marra, mesmo sem ingresso.
Somos sul-americanos e selvagens.
Odiamos as torcidas rivais.
Abraçamos a violência de nosso dia-a-dia e a canalizamos para tudo que fazemos.
Jogamos pedras no ônibus de nosso adversário.
Entregamos nosso precioso futebol para dirigentes que só querem lucro.
Que não estão nem aí para nós.
Que levam a decisão de uma competição nossa para o outro lado do oceano.
Não somos livres.
Somos selvagens.
E a confusa Libertadores desse ano deixou isto bem claro mais uma vez..."

* Em tempo, a final finalmente aconteceu, no civilizado e majestoso palco do Santiago Bernabeu, e quem levou foi o River Plate, que venceu de virada por 3 x 1. Pratto, Quintero, Pity Martinez e Benedetto(para o Boca) marcaram os gols da decisão.




9/22/2015

Granizo

Tensão total ontem à noite, quando a cidade foi bombardeada por uma chuva de granizo nunca antes vista. Além do susto, aqui em casa foram 4 telhas perfuradas e muita correria para salvar eletrodomésticos da água vinda do teto. Na imagem, algumas das várias pedras que despencaram sobre nós:


E, no link, a prova de que eu não exagerei nos adjetivos:

Bombeiros de Rio Grande recebem mais de 500 chamados após granizo
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/09/bombeiros-de-rio-grande-recebem-mais-de-500-chamados-apos-granizo.html

6/09/2015

A História Sem Fim


Há muito tempo atrás eu, meu irmão e meus pais costumávamos passar as férias na cidade de Maricá, no interior do Rio de Janeiro.

Numa dessas saudosas viagens, provavelmente em um Carnaval, uma de minhas amigas emprestou-me um livro que eu jamais esqueci: "A História Sem Fim".


Chovia o tempo todo, pelo que me lembro, e este livro com letras coloridas acompanhou-me durante todo o tempo. Lia o máximo que podia, entre os jogos de cartas, as comilanças e as brincadeiras da nossa turma.


Como todas as coisas boas, esta viagem à Maricá chegou ao fim. E durante a volta para casa, toda a criançada era reunida em um caminhão ou kombi.

Sem conseguir chegar ao fim da história, tive que devolver o livro para minha amiga com um aperto no coração e lágrimas nos olhos. Ela partiu, deixando-me sem o fim da história e com uma lacuna que durou vários anos.

Nunca encontrei outro exemplar da obra de Michael Ende e, sinceramente, nem sabia o nome do autor até que recentemente comprei o livro pela internet.

Agora um adulto, pude finalmente matar a vontade de ler a história até o final.

História esta que mostra o reino mágico de Fantasia sendo consumido por um Nada(que é igualzinho à onda de antimatéria que já devastou o Universo DC), que só pode ser detido se a imperatriz Criança receber um novo nome de um filho dos homens.

O bravo Atreiú e Fuchur(um Dragão da Sorte) passam por inúmeras e emocionantes aventuras para encontrar o salvador e trazê-lo à Fantasia.

A primeira parte da história é muito boa, e termina com o jovem Bastian Baltasar Bux salvando Fantasia.


A segunda parte mostra as andanças de Bastian pelo reino e começa meio chata, mas a narrativa logo torna-se interessante novamente, pois fica claro que o salvador de Fantasia encontrará muitas dificuldades para conseguir retornar para casa.

As páginas finais tem um quê de terror, e o final(?) da história não desaponta.

Recomendo a "História Sem Fim" para todas as pessoas que gostam de histórias. Recomendo, ainda, que você não largue seu exemplar até terminar de lê-lo. Não cometam o mesmo erro que eu cometi nas chuvosas estradas de Maricá.

* Meu exemplar foi editado pela Martins Fontes e lançado em 2011.

1/25/2015

Notebook

Sonhei que estava usando o notebook, fui tomar uma água e - quando retornei - ele estava quebrado bem no meio. Será que a loja ia trocar um aparelho com este pequeno defeito? No mesmo sonho(ou pesadelo), um grupo de pessoas estava aqui em casa escolhendo e dividindo as nossas coisas. Alguém levava a TV, outro saía com o sofá, uma mulher levava o microondas... Bizarro, não?

1/03/2014

Rápido e rasteiro

" ´O que você quer que eu faça? Eu preciso ir trabalhar´, berrava a mulher ao telefone, enquanto corria pelas ruas do centro da cidade.

***

Peguei-a no colo e corri, não havia mais nada a ser feito. Eles logo chegariam, e não ficariam nada contentes com toda aquela situação.

***

Entrou no quarto, abriu a carteira do pai e pegou a nota de 50 reais. A surra seria grande, mas iria valer à pena.

***

Lá estávamos, só eu e ela. A tarde começava a virar noite. Ela abraçou-me e sussurrou em meu ouvido a notícia que mudaria minha vida.


***

Arrancou um pedaço de minha perna, e não estava satisfeito. Continuou a perseguição. Estava determinado a tornar-me um deles."


12/01/2013

Rápido e rasteiro

Então a gota caiu no chão, e todos os olhos viraram-se em minha direção.

*

Olhei para baixo, e percebi que Katherine não estava mais comigo.

*

Na última hora me puxou pelo braço, e assim escapei da horda.

*

Cravou os dentes em mim, logo antes da porta ser fechada.

*

Tentei desviar o olhar, mas ela me viu, e tudo estava perdido.

*

Logo após o beijo, seus olhos subitamente ficaram vermelhos.

*

Senti que algo estava errado, e decidi não abrir a porta.

*

Olhei pro céu, e eles vinham em minha direção.

*

Com a transformação prestes a ocorrer, ela ainda estava por perto.

*

Logo após ver seu primeiro passo, soube que teria uma obra-prima.


8/15/2013

O Frio

"O frio, ao menos, impede meu cérebro de derreter..."



8/09/2013

Poema

Mais um poema(reescrito) de minha autoria:

"Doce Ilusão

Nada tenho a perder
Se teu corpo já não é meu
Não tenho como viver
Se teu olhar já não é meu

Esta doce ilusão que cultivei em solo árido
E tanto rezei para florescer
A fé de um louco, de um tolo
Que, intimamente, sabia que nunca triunfaria

Ficam as memórias apenas
A pena de já ter conhecido e perdido teus beijos
A ingrata vitória de saber que não és minha
E que nunca serás, verdadeiramente, de ninguém."

***

E mais uma coisa, que eu não sei bem o que é:

" 'Quantas vezes corri para não chegar?'
São quase seis da tarde
E este pensamento surgiu
Um ultimato
Ele queria virar palavras
E, ao contrário de mim, conseguiu."

7/24/2013

O Tombo

Fui ontem assistir ao filme "O Homem de Aço" e a sessão transcorria normalmente até que uma mulher que tinha ido ao banheiro(e estava sentada na 1ª fila) levou um tombo épico quando retornava para seu assento. Foi uma cena digna das "videocassetadas", que imediatamente provocou risos em boa parte das pessoas que estavam na sala. Também ri bastante, confesso, mas logo em seguida continuei prestando atenção no filme.

Só que a moça em questão não se levantava nunca, e logo todos perceberam. Algumas das pessoas foram ver o que havia acontecido com ela e pediram para que o filme fosse interrompido, pois ela tinha se machucado e precisava de ajuda. As luzes, então, foram acesas e alguém chamou uma ambulância para levá-la do local.

Depois de uns 20 ou 30 minutos, o pessoal da emergência chegou e levou-a de maca. Ela estava consciente e chorou bastante quando foi movida de onde tinha caído. Não sei que parte do corpo ela machucou, mas espero que esteja bem. É triste você sair para se divertir e acabar sofrendo um acidente como esse.

Vale lembrar que a mulher estava acompanhada, e que todos os risos cessaram quando o pessoal percebeu que algo mais grave tinha acontecido. O socorro demorou bastante para vir, mas várias pessoas ajudaram e não deixaram que ela se movesse, o que poderia acabar piorando a lesão.

Após ela ter sido levada, o filme voltou a ser exibido do ponto em que havia parado.

7/07/2013

Dilúvio

Um pedaço de coco obstruiu a calha e, após um temporal que caiu aqui em Rio Grande ontem lá pelas 6 da tarde, fui surpreendido por uma quantidade enorme de água invadindo meu quarto por todo o telhado. A cama e uma cômoda ficaram encharcados, mas felizmente não aconteceram maiores prejuízos. A correria foi grande para salvar os gibis que estavam nas prateleiras por onde a água escorria. Com exceção de uma que ficou com a capa meio ruim, todas as revistas também se salvaram. Agora o jeito é colocar tudo para secar e aproveitar que o quarto está vazio para pintar e limpar tudo. Maldito coco!

5/25/2013

Pesadelos

"Pesadelos

Acordou assustado. Acabara de ter um horrível pesadelo, o pior de toda a sua vida. Nele, não conseguia parar de vomitar toda sorte de insetos e "similares": baratas, besouros, formigas, centopéias, e outras criaturas bizarras. Em choque e suado, levou alguns segundos para recuperar-se e dar-se conta de que tudo estava bem. Sua esposa dormia tranquila, mas sua filha chorava no quarto ao lado. Foi vê-la e logo detectou o problema: uma fralda suja. Foi trocá-la e sentiu vontade de vomitar ao ver seu conteúdo nojento. Estava acostumado com a tarefa, nunca tinha sentido isso antes. O pesadelo sem dúvida mexera com ele. Conseguiu resistir e fez a troca, logo retornando para a cama.

Indo para o trabalho, presenciou um terrível acidente, dois carros amassados, e dois corpos retorcidos no asfalto. Mais uma vez veio a vontade, e mais uma vez ele resistiu e não vomitou. Chegou no escritório, feliz por poder deixar para trás aquela estranha manhã e enterrar-se no trabalho burocrático que tantas vezes desdenhara antes. Voltou para casa, ainda incomodado com o pesadelo, embora nenhuma outra ocorrência tenha sido registrada ao longo do dia. Após encerrar suas atividades, deitou-se, fechou os olhos e orou para que o pesadelo não retornasse. Mas suas preces ficaram sem resposta. Lá estavam novamente todos os animaizinhos nojentos, brotando de sua boca, de forma ininterrupta.

Era, sem dúvida, um pesadelo diabólico, surgido diretamente do inferno. Repetiu-se, então, o mesmo esquema, a mesma rotina. A fralda suja da bebê. Algum acontecimento nojento durante o dia. E, à noite, o retorno do pesadelo. Dia após dia. Semana depois de semana. E o sentimento de desconforto só crescia, a sensação constante de nojo persistia. Ele tentou mudar seus hábitos, buscou por remédios e terapias que lhe trouxessem alívio. Mas nada adiantava. Até que um dia o desespero fez com que ele tivesse uma ideia inusitada.

Saiu pela cidade coletando insetos. Vasculhou os cantos e buracos mais escuros em busca das criaturas. Nem mesmo os bichos voadores escaparam de sua determinada caçada. Trancou-se em casa e então realizou seu extravagante banquete. Seus dentes trituraram pernas, asas e antenas. E não demorou muito para que os bichinhos exigissem a sua saída, e irrompessem garganta acima, sem qualquer cerimônia. Ali estava o pesadelo enfim tornado realidade. Com lágrimas nos olhos, ele ajoelhou-se e rezou para que seu tormento noturno tivesse chegado ao fim graças à sua sinistra estratégia.

A noite veio, e com ela nenhum pesadelo. Ele estava livre daquelas sombrias imagens de insetos sendo vomitados. Sua ideia deu certo, e ele finalmente teve um dia feliz, onde conseguiu aproveitar seu trabalho, sua esposa e sua filha como há muito tempo não fazia. Foi para a cama novamente sem medo, certo de que não mais precisaria encarar o terror dos pesadelos. Ledo engano. O vômito destemperado estava de volta, e desta vez não eram insetos que estavam sendo devolvidos, mas partes do corpo de sua filhinha, que ele reconhecera imediatamente.

Voltou ao mundo real, abriu a janela e saltou, vindo a encontrar o asfalto 20 andares depois. Morreu contente, pois sabia que esta era a única solução que ele seria capaz de aplicar ao seu pequeno problema com os pesadelos que insistem em continuar brincando até tornarem-se reais."

3/21/2013

No Céu

"No Céu

Olhei pela janela e lá estava ele
Acompanhando-me por todo o caminho:
Um filhote de arco-íris

Então, de repente, ele sumiu
E só deixou lá em cima
O azul, e o uniforme alvinegro das nuvens

Mas ele não demorou a voltar
Ainda maior, ocupando o céu de ponta a ponta
Espetáculo deveras majestoso

Lá estavam elas
Todas as cores brilhantes
Abençoando o dia de todos nós."







7/06/2012

O poema

"O poema

Ontem eu sonhei com o mais belo dos poemas. Mas acordei, e grande parte dele perdeu-se no abismo da realidade. O poema falava sobre a Lua, uma Lua tão alva, tão brilhante, que eu ousei compará-la à tua pele. Brilhante também era o Sol que eu citei. E ele lembrava seus belos cabelos amarelos. Amanhã tentarei reencontrá-lo em alguma esquina do sonhar..."

4/17/2012

A Caixa

"A Caixa

Não poderia existir uma noite melhor do que aquela para a nossa despedida. No dia seguinte, ele partiu para a guerra, e já está fora há tento tempo que nem sequer ouso começar a pensar sobre o assunto. Cerca de um mês atrás, começaram os pesadelos sobre sua morte, cada um mais horrível do que o anterior. Mas, pelo menos, nós temos aquela noite. Aquela mágica noite de setembro. A noite em que ele me deu a caixa. Ficamos conversando por horas e horas. Saboreamos nossas comidas favoritas. Praticamente viramos uma só pessoa em alguns momentos. E, quando acordamos, recebi a caixa de suas mãos trêmulas. Trêmulas não por causa de alguma dúvida ou receio. Nem por causa de algum medo. Mas de emoção. Virei a orgulhosa protetora da mais bela faceta de meu amado. Da coisa pela qual valia à pena lutar naquele sinistro combate que corrompe tantos de nós geração após geração. Depois das primeiras derrotas devastadoras, aprendemos que não podíamos mergulhar inteiros. Tínhamos que ter uma âncora para poder atravessar. Tínhamos que deixar para trás alguém que amássemos. Tínhamos que deixar a caixa para essa pessoa. Só assim teríamos alguma chance. Só assim poderíamos encarar tamanho horror de igual para igual. E aqui estou, sobrevivendo por causa daquela noite. Ainda suportando o peso de estar sozinha apenas por causa da caixa e de seu inestimável conteúdo."

3/11/2012

ABC

"ABC

Pegou a faca e começou a desenhar a letra A em seu braço. Foram três cortes firmes e demorados. Ao ver sua obra terminada, ficou feliz. Como há muito tempo não ficava. Tão feliz que nem sequer ligava para a dor. Na noite seguinte, desenhou um B, de forma ainda mais perfeita e demorada. E assim continuou, uma letra por noite, usando seus braços e pernas como quadro para seu alfabeto escarlate. O inverno facilitava a missão de esconder dos outros, idiotas, as belas e meticulosas marcas. Ah, se tivesse começado mais cedo, quando ainda tinha chance de usar aquela sensacional descoberta para mudar seu destino. A verdade é que, para ela, a vida já estava perdida. E ela sabia. Decidiu, então, compartilhar o abecedário com sua irmã e seus colegas de classe, as pessoas que ela acreditava merecerem ter um futuro brilhante. Numa manhã de terça-feira, invadiu a sala de aula, nocauteou a professora, trancou a porta e iniciou seu imprescindível trabalho. Uma a uma, as nove crianças tiveram as 26 letras desenhadas em seus corpos. Sim, agora elas sabiam. Agora, elas poderiam crescer. Agora, eram completas, como ela jamais pôde ser. Depois de terminar o Z na sola do pé de sua irmã, pegou a faca e golpeou repetidamente a própria barriga. Sua vida, sem dúvida, merecia um perfeito e imaculado ponto final."

9/06/2011

O Lado Escuro

Gosto muito da música "Quase Um Segundo", lançada pelos Paralamas do Sucesso no disco "Bora Bora", de 1988. A letra começa da seguinte maneira: "Eu queria ver no escuro do mundo/ Onde está tudo que você quer/ Pra me transformar no que te agrada/ No que me faça ver/ Quais são as cores e as coisas/ Pra te prender".

Legal esta ideia de que as nossas preferências e as coisas de que gostamos possam estar à disposição de alguma outra pessoa, que consiga visualizá-las em algum lugar secreto, o tal "lado escuro" do mundo. Seria a mesma coisa do que ler a mente de alguém(no melhor estilo de Charles Xavier e Jean Grey) ou então entrar na cabeça da pessoa amada(como no bizarro(e ótimo) filme "Eu Quero Ser John Malkovich").

A seguinte história, então, é baseada neste conceito:

"Sempre usei o lado escuro para poder ver "coisas" sobre as pessoas. Ver do que elas gostam, suas músicas favoritas, suas crenças, etc. Tudo começou quando eu ainda era uma criança e, apaixonado por uma menina, fui capaz de - pela primeira vez - adentrar no mundo escuro e conhecer tudo que realmente importava para ela.

Não sei explicar como aconteceu. Eu simplesmente olhei para ela e, quando percebi, pude ver todas as coisas que ela gostava, e também as coisas que ela não conseguia suportar. Podia, na verdade, manipular estas informações, e até senti-las. Apesar de escuro, este mundo era maravilhoso. Ela era maravilhosa.

Acabei namorando esta menina por algum tempo, mas graças às visitas ao lado escuro, fiquei sabendo tantas coisas a seu respeito que acabei largando-a, para procurar novas pessoas, novas experiências. E assim continuei, sempre buscando novas namoradas e seus mundos secretos, nunca satisfeito por completo com estas relações.

Quando fiquei adulto, esta troca constante de namoradas continuou, mas não indefinidamente, apenas até eu encontrar ela, a mulher que tinha tantas facetas, tantos segredos, tanto a oferecer que eu nunca pude me cansar dela. O fascínio que ela despertava em mim era imenso. Tudo que eu vivia com ela era maravilhoso, assim como era incrível o que eu via a respeito dela no "lado escuro".

Imagens deslumbrantes, mensagens que pareciam infinitas, um verdadeiro turbilhão de cores e aromas... Teorias insanas, fórmulas profanas, podia facilmente me perder por lá... E foi isso que eventualmente acabou acontecendo.

Minhas viagens ao "lado escuro" começaram a ficar cada vez mais demoradas, até o momento em que perdi totalmente o controle e esqueci de retornar à realidade. Já tentei algumas vezes voltar ao meu corpo, mas não pude. Talvez já não haja mais um lugar para voltar. Não sei há quanto tempo estou aqui, agora perfeitamente integrado ao "lado escuro" da mulher que amo."

6/19/2011

Domingo

"Domingo

Lembro das manhãs de domingo.
Lembro que domingo era o meu dia favorito. (Atualmente é o sábado, acho.)
Lembro da música que a mãe cantava para mim:
"Hoje é domingo
Pé de cachimbo
O cachimbo é de ouro..."(E assim seguia, até o fim do mundo.)
Lembro de caminhar com meu pai até a banca da praia.
Lembro de passar pelo colégio fechado. (Queria muito que tivesse aula, às vezes, para ver ela.)
Lembro que o meu pai comprava O DIA. (Gostava mais do Globo por causa das tirinhas.)
Lembro que sempre pedia um gibi. (E, em muitas ocasiões, não levava).
Lembro que um dia ganhei um dos Transformers. (Com a primeira, de muitas histórias, que nunca chegariam ao fim para mim.)
Lembro com carinho destas manhãs de domingo.
Pena que elas não voltarão jamais..."