Mais um poema de minha autoria:
"O Último Reino
Não foi por fadiga das guerras,
nem pelo inverno das cidades,
nem pelo peso das coroas
que abandonei meu nome.
Vi impérios nascerem do barro,
montanhas dobrarem os joelhos ao tempo,
mares esquecerem suas margens,
e reis mendigarem um punhado de memória.
Nada permaneceu.
Então surgiu ela.
Não como surge a aurora,
que ainda pertence ao céu.
Nem como nasce uma estrela,
que deve obediência à noite.
Ela apareceu
como se a Beleza,
expulsa do primeiro dia do universo,
houvesse encontrado novamente
um corpo digno de habitá-la.
As flores aprenderam seu perfume.
O ouro invejou sua pele.
O silêncio passou a imitá-la,
pois nenhuma música alcançava
a serenidade de sua presença.
Chamavam-na mulher.
Mas esse nome era pequeno.
Chamavam-na rainha.
Era ainda menor.
Nenhuma língua possuía
um som vasto o bastante
para conter sua existência.
Ela caminhava,
e o horizonte seguia seus passos,
como um discípulo
que teme perder a última verdade.
Então compreendi.
Toda espada vencera batalhas inúteis.
Toda ciência aprendera perguntas erradas.
Toda glória era apenas poeira
esperando uma brisa.
Porque o universo inteiro
fora apenas um longo caminho
até seus olhos.
Que valor teria meu sangue,
se não pudesse misturar-se
ao rio onde ela nascera?
Que sentido teria minha voz,
se jamais alcançasse
o silêncio que ela respirava?
Não pedi aos deuses
que prolongassem meus dias.
Pedi-lhes apenas
que desfizessem minhas fronteiras.
Que retirassem de mim
o peso do nome,
a prisão da carne,
a arquitetura do tempo.
Não desejei desaparecer.
Desejei tornar-me
aquilo que nenhuma morte derrota.
Ser vento
quando seus cabelos buscassem o infinito.
Ser chuva
quando sua pele chamasse o verão.
Ser claridade
entre seus dedos.
Ser memória
quando o mundo esquecesse.
Ser eternidade
onde ela repousasse.
Então deixei para trás
o último reino que possuía:
eu mesmo.
E nenhum exército celebrou.
Nenhum sino anunciou.
As estrelas apenas abriram espaço
como quem reconhece
o retorno de um viajante antigo.
Desde então,
não caminho sobre a terra.
Sou a distância
entre um batimento e outro
do coração da mulher
mais bela que o mundo
jamais ousou sonhar.
E se algum poeta,
nos séculos vindouros,
procurar meu túmulo,
não encontrará pedra,
nem cinzas,
nem inscrição.
Encontrará apenas
o brilho impossível
que circunda seu rosto.
Pois foi ali,
na luz que dela emana,
que minha existência
aceitou tornar-se
infinita."
3 comments:
Bravo! Um dos melhores!
Valeu!
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