Showing posts with label Um dia na vida. Show all posts
Showing posts with label Um dia na vida. Show all posts

10/22/2007

Um Dia na Vida(Final)

Naquela tarde, Carolina não conseguiu ver o que lhe atingiu. Não é impressionante o fluxo de almas e armaduras que movimenta as grande cidades? Cidades estas que deveriam receber de braços abertos todos os seus filhos.

Carolina viu várias luzes brilhantes, ouviu uma miríade de nomes estranhos e engraçados, deleitou-se ao ver-se cercada por anjos de roupas brancas. Ouviu seu nome ser mencionado algumas vezes, mas estava tão extasiada que não podia responder.

E então, de repente, o universo começou a derreter, embalado por uma estranhíssima canção de música eletrônica. E os olhos de Carolina não mais puderam ver, e o sangue de Carolina não mais pôde correr.

*****
Às vezes, não conseguimos ouvir os avisos mais importantes, por mais que tentemos. Às vezes, deixamos passar uma chance nascida apenas para nos servir. Às vezes não damos atenção à única voz que fala com clareza. Às vezes não vemos o amor que as pessoas próximas tentam nos dar.
O que seria do mundo se não fôssemos todos tão humanos?(FIM)

10/18/2007

Um Dia na Vida(Parte 3)

"Carolina abriu os olhos e viu-se cercada por uma luz branca fortíssima, que aos poucos foi dissipando-se. Ela não sabia como chegara àquele lugar, mas sentia-se desorientada por todo aquele barulho e movimento ao seu redor.

Por um instante, Carolina pensou ter ouvido a voz de seu pai, mas esta impressão foi rapidamente substituída por um temporal de várias emoções interligadas, que a controlavam, que não a deixavam pensar claramente.

Após vários momentos de um bizarro êxtase, Carolina voltou a ser ela mesma, voltou a ter controle sobre os seus pensamentos e os seus sentidos. Olhou à sua volta, e percebeu que estava em um jardim inteiramente florido, e tinha a companhia de vários tipos de animais.

Carolina olhou para baixo, e encontrou um lindo bebê acomodado em seus braços. A criança sorriu para Carolina, com sua boca ainda sem dentes, e falou:
- Estou feliz por sua precoce chegada! Eu sempre esperei por você!

Carolina sabia quem era aquele bebê, e não pôde conter as lágrimas, que brotavam saltitantes dos seus olhos. Carolina abraçou aquele pequeno ser e sentiu-se feliz, mesmo sabendo da inevitável conclusão que aquela descoberta trazia para a sua mente.

Carolina, então, sentiu uma incontrolável vontade de andar, e andou, andou sem parar, ainda que sem saber qual seria o seu destino. Após vários momentos, ela e o bebê encontraram um espelho. Ao olhar-se, Carolina subitamente viu o bebê desaparecer e a sua forma mudar, ela voltara a ser uma menina de treze anos.

Carolina sorriu, enquanto transformava-se em algo novo, algo que ela não sabia explicar, mas que enchia-lhe de calor e satisfação. Assim, pouco a pouco, o ciclo se completava. E Carolina pôde, enfim, atravessar o espelho e voltar a ser...

Enquanto isso, por estas bandas, os dias continuavam a ir e vir, incessantes, inesgotáveis."

(Continua)

10/15/2007

Um Dia na Vida(Parte 2)

"Carolina escondeu-se dentro do armário de seu quarto, como fazia sempre que seu pai enlouquecia por causa da bebida. Era uma verdadeira tortura, ter que agüentar os gritos, as brigas, os xingamentos. Nesta noite, o casamento de seus pais terminou.

Carolina foi puxada para fora contra a sua vontade. Olhou para os olhos de seu pai e encontrou os olhos de um estranho. Dominado por uma raiva cega e estúpida, ele começou a bater e a bater naquela pessoa que tanto o prezava, apesar de todas as coisas ruins que ele fazia.

Carolina sabia, enquanto o sangue brotava por todo o seu corpo, que aquela era a gota d´água, nada mais seria o mesmo. Mais tarde, no hospital, um policial tomou o seu depoimento, o depoimento de uma garota com olhos roxos, costelas fraturadas, cortes por todo o corpo. Uma garota ferida por seu próprio pai, uma garota que teve a sua alma partida em dois pedaços.

Carolina nunca mais reencontrou o pai. Ele passou alguns anos na prisão, pagando pelas sucessivas agressões fisicas e mentais praticadas contra a esposa e a filha. Depois de voltar ao convívio da sociedade, ele não teve coragem de encarar a sua família novamente. Ele veio a falecer, vítima de um tiro durante um assalto, no mesmo ano em que Carolina formou-se em Jornalismo.

Carolina buscou, em seu íntimo, compreender porque passara por tudo aquilo na infância, mas jamais encontrou uma resposta plausível. Seu pai era muito ciumento, e muito inseguro em relação à várias coisas, como a sua vaidade e a sua verdadeira importância no mundo. Para ele, ser um pai de família nunca fora o bastante.

Carolina escondeu-se durante toda a sua infância, escondeu-se na sala de aula, escondeu-se nas aulas de balé, escondeu-se nos almoços e nos jantares. Depois daquela fatídica noite, ela sentiu-se livre após viver enjaulada por uma eternidade. Mas essa liberdade custou caro, muito caro. Custou à Carolina a sua inocência, a sua crença na capacidade de amar, uma parte de sua perfumada humanidade."

Continua...

10/11/2007

Um Dia na Vida(Parte 1)

"Carolina preparava-se para dormir quando o blecaute aconteceu. Era uma noite de terça, uma típica noite do inverno gaúcho. E, de uma hora para outra, as estrelas voltaram a reinar absolutas.

Carolina pegou a lanterna no criado mudo, foi até o banheiro e voltou para se deitar. Agradecia agora à gripe que a tirou da comemoração pelos 30 anos do jornal A Nova Fronteira e a deixou em casa, no conforto sagrado de seu lar.

Carolina escondeu-se sob as cobertas e tentou pegar no sono durante vários minutos sem alcançar sucesso. Resignada, levantou-se, foi até a cozinha e fazer um lanche e depois voltou para a cama, munida de um caderno e uma caneta.

Carolina, sob a pálida luz de sua lanterna, começou a esboçar sua crônica de final de semana, que falaria sobre o caos em que se encontra a saúde pública brasileira. O tempo passou, a crônica concluiu-se e ela finalmente conseguiu dormir. Mas não por muito tempo.

Carolina foi acordada por um grito às duas da manhã, um grito animal, primitivo, apavorante. Ao abrir os olhos, Carolina viu parada na frente da cama uma menina, vestida com um longo vestido branco.

Carolina, sem entender coisa alguma, logo reconheceu a menina. A menina era ela mesma na flor de seus treze anos. A menina sorriu, e começou a dançar de forma frenética pelo quarto. Não havia música alguma.

Carolina assistia aquele bizarro show, pensando estar louca ou alucinando por algum motivo qualquer. A menina então parou, olhou para sua versão adulta e começou a mexer os lábios. Ela falava, mas não se ouvia qualquer som. Quando acabou seu discurso, ela chorou, e então esvaiu-se em sangue, sangue que logo também acabou por desaparecer.

Carolina foi trabalhar na manhã seguinte, ansiosa por reencontrar seus colegas, ansiosa por qualquer contato humano que a fizesse esquecer novamente aquela parte de si que ela julgava perdida, enterrada para sempre nos sombrios abismos da memória, mas que acabou por reaparecer no estranho acontecimento da noite anterior."

Continua...