9/04/2026

Ciclo dos Afetos

 Com vocês, o Ciclo dos Afetos: 


"Ciclo dos Afetos


I – O Olhar


Ao ver-te, a tarde abriu-se em quietação,

Qual alba erguendo o véu sobre o arvoredo;

Sem voz, rompeu-se o antigo e frio medo,

E fez-se abril no inverno do coração.


Não houve promessa ou declaração;

Bastou que o instante se tornasse enredo,

Enquanto o mundo, em seu girar quedo,

Perdia o rumo e a antiga direção.


Teus olhos deram forma ao meu caminho,

Como quem guia um náufrago ao porto,

Sem exigir palavra ou juramento.


Desde esse dia sigo menos sozinho:

Nasceu da luz um vínculo tão forte,

Que vence a ausência, o acaso e o tempo.


II – O Encontro


Cruzaste o meu caminho sem alarde,

Qual fonte abrindo curso entre os jardins;

Cantavam brandamente os alecrins,

E o vento perfumava a clara tarde.


Cedeu o ermo ao verde que ainda arde,

Floriram campos antes tão ruins;

Uniram-se, sem cálculo ou afins,

Dois rumos que a esperança nunca guarde.


Tomaste a minha mão com singeleza,

E o passo, outrora incerto e solitário,

Achou repouso em tua companhia.


Fez-se da estrada um hino à natureza,

Pois cada dia, simples e diário,

Trazia um novo fruto à nossa via.


III – A Paixão


Qual mar revolto ao sopro do verão,

Rendeu-me o peito à força do teu ser;

Nenhum prudente intento de conter

Venceu o ímpeto dessa atração.


Teu beijo tinha o ardor da antiga vinha,

Maduro fruto entregue ao paladar;

Teu corpo era horizonte sobre o mar,

Onde encontrava abrigo a vida minha.


Nas tuas mãos cessava toda guerra,

E o sangue, em febre mansa, se acalmava

Ao ritmo antigo do teu coração.


Se o mundo inteiro vacilasse em terra,

Bastava o abraço que me sustentava,

Para fazer de dois um só clarão.


IV – A Alegria


Não mais corria o sangue em sobressalto,

Nem cada beijo ardia como vulcão;

Morava a paz em nossa habitação,

Feita de afeto firme e sonho alto.


À mesma mesa repartíamos o pão,

E o riso convertia o esforço em canto;

Cada manhã desfazia o desencanto,

Como a raiz sustenta o velho chão.


À sombra amiga de uma antiga árvore,

Víamos as estações mudarem lentas,

Sem recear o curso dos invernos.


Pois quem cultiva o bem com mãos atentas

Colhe, no tempo, a mais discreta dádiva:

Dois corações fiéis tornam-se eternos.


V – A Despedida


Chegou o outono ao ramo mais florido,

Sem voz desfez o verde do pomar;

Calou-se a fonte à margem do lugar,

Onde o afeto vivera recolhido.


Partiste. E o velho umbral ficou despido,

Guardando apenas ecos do teu andar;

Nenhuma prece pôde restaurar

O que o destino havia dividido.


Não te busquei nas sombras do passado,

Nem quis prender o vento em minha mão;

Aprendi a escutar o seu caminho.


Pois todo vínculo, se foi honrado,

Permanece além da separação,

Qual estrela guiando o peregrino."

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