Com vocês, o Ciclo dos Afetos:
"Ciclo dos Afetos
I – O Olhar
Ao ver-te, a tarde abriu-se em quietação,
Qual alba erguendo o véu sobre o arvoredo;
Sem voz, rompeu-se o antigo e frio medo,
E fez-se abril no inverno do coração.
Não houve promessa ou declaração;
Bastou que o instante se tornasse enredo,
Enquanto o mundo, em seu girar quedo,
Perdia o rumo e a antiga direção.
Teus olhos deram forma ao meu caminho,
Como quem guia um náufrago ao porto,
Sem exigir palavra ou juramento.
Desde esse dia sigo menos sozinho:
Nasceu da luz um vínculo tão forte,
Que vence a ausência, o acaso e o tempo.
II – O Encontro
Cruzaste o meu caminho sem alarde,
Qual fonte abrindo curso entre os jardins;
Cantavam brandamente os alecrins,
E o vento perfumava a clara tarde.
Cedeu o ermo ao verde que ainda arde,
Floriram campos antes tão ruins;
Uniram-se, sem cálculo ou afins,
Dois rumos que a esperança nunca guarde.
Tomaste a minha mão com singeleza,
E o passo, outrora incerto e solitário,
Achou repouso em tua companhia.
Fez-se da estrada um hino à natureza,
Pois cada dia, simples e diário,
Trazia um novo fruto à nossa via.
III – A Paixão
Qual mar revolto ao sopro do verão,
Rendeu-me o peito à força do teu ser;
Nenhum prudente intento de conter
Venceu o ímpeto dessa atração.
Teu beijo tinha o ardor da antiga vinha,
Maduro fruto entregue ao paladar;
Teu corpo era horizonte sobre o mar,
Onde encontrava abrigo a vida minha.
Nas tuas mãos cessava toda guerra,
E o sangue, em febre mansa, se acalmava
Ao ritmo antigo do teu coração.
Se o mundo inteiro vacilasse em terra,
Bastava o abraço que me sustentava,
Para fazer de dois um só clarão.
IV – A Alegria
Não mais corria o sangue em sobressalto,
Nem cada beijo ardia como vulcão;
Morava a paz em nossa habitação,
Feita de afeto firme e sonho alto.
À mesma mesa repartíamos o pão,
E o riso convertia o esforço em canto;
Cada manhã desfazia o desencanto,
Como a raiz sustenta o velho chão.
À sombra amiga de uma antiga árvore,
Víamos as estações mudarem lentas,
Sem recear o curso dos invernos.
Pois quem cultiva o bem com mãos atentas
Colhe, no tempo, a mais discreta dádiva:
Dois corações fiéis tornam-se eternos.
V – A Despedida
Chegou o outono ao ramo mais florido,
Sem voz desfez o verde do pomar;
Calou-se a fonte à margem do lugar,
Onde o afeto vivera recolhido.
Partiste. E o velho umbral ficou despido,
Guardando apenas ecos do teu andar;
Nenhuma prece pôde restaurar
O que o destino havia dividido.
Não te busquei nas sombras do passado,
Nem quis prender o vento em minha mão;
Aprendi a escutar o seu caminho.
Pois todo vínculo, se foi honrado,
Permanece além da separação,
Qual estrela guiando o peregrino."
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